terça-feira

...

Bianca Alves


       Entendi ou cheguei perto de compreender o que é se sentir no lugar errado, no corpo errado, uma experiência ‘transexual’, de viver dentro e querer morar em outra matéria. 
     O amor e o seu não pertencimento, sua negação de morar no interior e ir morar no interior do outro, parecia loucura, talvez até seja, mas eu gostei mais da sua casa, da disposição dos seus móveis, do seu varal cheio de cores, dos seus tênis com numeração maior, dos cheiros que vinham da sua cozinha e dos seus temperos mágicos. 
        No  meu santuário ... tentei adivinhar qual deles intervinha por nós,  quem iria nos proteger de nós, o amor e a sua eterna falta de garantias, nada de 90 dias ou substituição de peças, só tenho você por tempo determinado, já que somos finitos, já que mudamos de ideia, já que somos imprevisíveis, imprevistos, já que viver tem curva e a reta não nos seduz, sigo com você e por mais que a racionalidade me finque no chão, quero que seja pra sempre e além da finitude dos nossos corpos, exagero, mas não enfeito, não faço zoom no meu amor, te olho de longe e te beijo de perto, parece devastador, mas não me destrói, não me apequena te amar, moro em você sem ser você, me visto de você sem me despir do que sou.... 

segunda-feira

Bianca Alves

É matéria do amor, o amor.
dos amantes, amar.
das bocas, línguas inquietas.
dos corpos, leituras em braile.
das mãos, laços silenciosos.
das alianças, acordos de paz.
dos ritos, milagres cotidianos.
das músicas, curas.
da escuridão, lamparinas dos olhos.
da palavra,coisas não ditas.
do desespero, o amanhã, o amanhã sem falta.
do poema, acalanto e beijos que desencadeiam rimas bestas.
da dor, doril, dormência, Cartola.
da saudade, canto de mãe, colo de vó, furinho na lata de leite moça.
do desencontro, tempo, cartas em gavetas, flores secas em diários e enganosos esquecimentos.
do dissabor,  café na estrada, livros sem capas, camiseta preferida, violão com corda, arranhão na música preferida, fotos embaixo do colchão.
do desamor, amor, qualquer amor disposto.


Da volta, voltas...

quinta-feira

Cartas que não chegam...

Carta escrita por Yoko Ono, no 27º aniversário de morte de John Lennon... 


“Sinto saudades, John. 27 anos se passaram e ainda desejo poder voltar no tempo até aquele verão de 1980. Lembro-me de tudo – dividindo nosso café da manhã, caminhando juntos no parque em um dia bonito, e ver sua mão pegando a minha – que me garantia que não deveria me preocupar com nada, porque nossa vida era boa. Não tinha ideia de que a vida estava a ponto de me ensinar a lição mais dura de todas. Aprendi a intensa dor de perder um ser amado de repente, sem aviso prévio, e sem ter o tempo para um último abraço e a oportunidade de dizer “Te amo” uma última vez. A dor e o choque de perder você tão de repente está comigo a cada momento de cada dia. Quando toquei o lado de John na nossa cama na noite de 08 de dezembro de 1980, percebi que ainda estava quente. Esse momento ficou comigo nos últimos 27 anos – e vai ficar comigo para sempre. Ainda mais difícil foi ver o que foi tirado de nosso lindo filho Sean. Ele vive com uma raiva silenciosa por não ter seu pai, a quem ele tanto amava e com quem compartilhou sua vida. Eu sei que não estamos sozinhos. Nossa dor é compartilhada com muitas outras famílias que sofrem por serem vítimas de violência sem sentido. Esta dor tem de parar. Não percamos as vidas daqueles que perdemos. Juntos, façamos o mundo um lugar de amor e alegria e não um lugar de medo e raiva. Este dia em que se comemora a morte de John, tornou-se cada vez mais importante para muitas pessoas ao redor do mundo como um dia para lembrar a sua mensagem de Paz e Amor e fazer o que cada um de nós podemos fazer para curar este planeta que nos acolhe. Pensem em Paz. Atuem em paz. Compartilhem a Paz. John trabalhou para ele toda a sua vida. Ele costumava dizer: “Sem problemas, somente soluções”. Lembre-se, estamos todos juntos. Podemos fazê-lo, devemos. Eu te amo! Yoko Ono Lennon.”

segunda-feira

O futuro da paixão

Maitê Proença




Era o fim de uma história de amor, dentro de mim correntes de ferro a se arrastar. Neste estado encontro uma grande dama das artes cênicas e, num ímpeto, derramo sobre ela a minha tormenta. Depois de tudo escutar, e como forma de consolo, a diva, do alto de seus oitenta anos, me diz: 

- Também estou apaixonada. Só que ele não sabe. Nem precisa saber. A paixão me faz ir para o teatro todos os dias e vibrar. Eu coloco essa coisa vigorosa no trabalho, e assim, experimento o amor, transformando-o naquilo que sei fazer de melhor. 
Falou mais bonito do que isso, mas passados alguns anos, o que ficou daquele momento de sabedoria compartilhada, foi a ideia da paixão como propulsora dos nossos talentos, como viabilizadora de delírios, e como força motriz para aquilo que precisa ser feito, mas não acontece, porque ela desperta movimentos estagnados dentro da gente. Uma paixão sem dono a serviço do mistério, nos dá ânimo para fazer deslanchar qualquer impulso, é a dor que se cura ao se deslocar do amor - basta misturá-la com um bocado de coragem e se lançar à vida, e à criação. 
No momento atual, que para mim é de virada, a receita se ajusta trazendo alento a um processo incômodo, mas necessário. Hábitos e trejeitos que foram naturais até bem pouco, precisam ser substituídos por outra forma de agir inexplorada. Dia desses assisti a uma atriz francesa, cinquentona, digna e bela, sendo entrevistada por um senhor bem apessoado. Ela falava inteligências, soltava tiradas que exibiam sua perceptividade aguda, tudo parecia sensível e surpreendente. Contudo, havia algo ali que não ia bem, e pelas tantas percebi um tom coquete de sedução barata a macular a dignidade do quadro. Muxoxos e gestos forçados surgiam vez por outra nas entrelinhas dos pensamentos, e para minha decepção, o encanto daquela mulher extraordinária foi se desmanchando lenta, mas inexoravelmente à minha frente. Era constrangedora a necessidade de seduzir com armas inferiores aos atributos de sua beleza madura. Era vulgar vê-la lançando mão de algo aquém de si mesma. E era triste perceber que a sofisticada criatura levava o mecanismo tão entranhado em si, que não se dava conta da banalidade a que se prestava. A afetação, os cabelos pra cá e pra lá, certos maneirismos afins, são graciosos em uma moça de vinte cinco, mas mostram-se intoleráveis em uma senhora de cinquenta (por mais bela que se mantenha). Aos vinte, aos trinta vivemos questões que atravancam nosso desenvolvimento, e que, envergonhados, tentamos mascarar para lidarmos com eles na surdina: são nós, inseguranças, medos e outras chatices que assolam a todos, inibindo alguns mais do que outros. Com os anos, muito disso vai se dissolvendo, e para quem tem densidade, sem os percalços a imobilizar, certa consistência passa a transparecer nos diversos aspectos da vida: no trabalho, amor, nas conversas, na amizade, em cada empreitada. É isso o que torna interessante uma mulher madura, uma pessoa madura. Já não é viço do rosto ou o corpo bem feito, mas algo que vibra dentro numa postura segura e vigorosa. Essa beleza tem a vantagem de ser perene, e para que perdure robusta, há que se encharcá-la sempre que possível, de entusiasmo ou paixão, seu sinônimo. Tendo fraturado 21 ossos ao longo da vida em função de um excesso de entusiasmo voltado a qualquer aventura que se apresentasse, decidi, a fim de preservar o esqueleto aquebrantado, investir em novos amores que me instiguem tanto quanto, mas que não mais me desintegrem. Doravante, além do ofício escolhido, investigarei a fundo as artes plásticas contemporâneas, estudarei o entre-guerras com afinco, incursionarei pela música de Mahler de forma metódica, lerei concentrada os livros da estante, dedicarei horas preciosas aos amigos diletos. Entregue a novas paixões lanço frentes de prazer para um futuro, que, benza deus, se apresenta cada dia mais sedutor. 

sexta-feira

ESQUECIDO, MAS FELIZ

Fabrício Carpinejar


Eu posso esquecer a receita do minestrone da avó.
Eu posso esquecer a loja em que comprei a calça preta favorita.
Eu posso esquecer o restaurante que escolhemos para passar a virada do ano e o coquetel flamejante que bebemos, desculpa, fumamos (era a nossa piada).
Eu posso esquecer o autor do verso “nunca me perdi de vista: detestei-me, adorei-me, depois envelhecemos juntos”.
Eu posso esquecer o esconderijo dos óculos de sol.
Eu posso esquecer que toalha de crochê tem um lado certo.
Eu posso esquecer de desligar o alarme do celular, agendado na manhã anterior.
Eu posso esquecer que o carnê do carro vence no dia 7.
Eu posso esquecer a melhor marca de azeite.
Eu posso esquecer o diretor do filme em que um casal está perdido em Tóquio.
Eu posso esquecer os aniversários dos sobrinhos.
Eu posso esquecer que você odeia aspargos, mas gosta de palmito (o inverso de mim).
Eu posso esquecer de deixar a luz acesa no corredor, já que tem medo de atravessá-lo durante a madrugada.
Eu posso esquecer minha mania de enfiar os chinelos debaixo da cama e procurar o par pela casa inteira.
Eu posso esquecer qual é a rua do sapateiro para salvar a sola dos meus sapatos.
Eu posso esquecer o que significa tramela.
Eu posso esquecer as diferenças entre o jasmineiro e o jacarandá.
Eu posso esquecer se desliguei a cafeteira ou fechei a porta.
Eu posso esquecer o nome de nossos vizinhos.
Eu posso esquecer de temperar o bife.
Eu posso esquecer a capital de El Salvador.
Eu posso esquecer de colocar protetor ao jogar futebol.
Eu posso esquecer daquele perfume de figo que você usa, adquirido na Itália.
Eu posso esquecer de levar meus casacos à lavanderia.
Eu posso esquecer de responder e-mails de pedidos de entrevista.
Eu posso esquecer de fazer a cópia da chave da correspondência.
Eu posso esquecer da revisão do carro a cada 10 mil quilômetros.
Eu posso esquecer a lista dos anjos que decorei na infância ou como se chama a cobra que morde o rabo.
Eu posso esquecer de ajeitar a unha do pé direito, que dói ao caminhar muito.
Eu posso esquecer as exceções da crase.

Não morro de inveja de quem lembra de tudo, e esqueceu de amar.
Tenho amor, não tenho memória.
Posso esquecer tudo, menos de você que me acompanha desde sempre. Você me lembra do que vivo esquecendo.

terça-feira

...

Ana Cristina César



“Apaixonada,
saquei minha arma,
minha alma,
minha calma.
Só você não sacou nada.”


Separação

Affonso Romano de Sant'Anna


Desmontar a casa

e o amor. Despregar
os sentimentos das paredes e lençóis.
Recolher as cortinas
após a tempestade
das conversas.
O amor não resistiu
às balas, pragas, flores
e corpos de intermeio.

Empilhar livros, quadros,
discos e remorsos.
Esperar o infernal
juizo final do desamor.

Vizinhos se assustam de manhã
ante os destroços junto à porta:
-pareciam se amar tanto!

Houve um tempo:
uma casa de campo,
fotos em Veneza,
um tempo em que sorridente
o amor aglutinava festas e jantares.

Amou-se um certo modo de despir-se
de pentear-se.
Amou-se um sorriso e um certo
modo de botar a mesa. Amou-se
um certo modo de amar.

No entanto, o amor bate em retirada
com suas roupas amassadas, tropas de insultos
malas desesperadas, soluços embargados.

Faltou amor no amor?
Gastou-se o amor no amor?
Fartou-se o amor?

No quarto dos filhos
outra derrota à vista:
bonecos e brinquedos pendem
numa colagem de afetos natimortos.

O amor ruiu e tem pressa de ir embora
envergonhado.

Erguerá outra casa, o amor?
Escolherá objetos, morará na praia?
Viajará na neve e na neblina?

Tonto, perplexo, sem rumo
um corpo sai porta afora
com pedaços de passado na cabeça
e um impreciso futuro.
No peito o coração pesa
mais que uma mala de chumbo.

A morta viva

Murilo Mendes

Maria do Rosário estendida no caixão
Toda vestida de branco aos vinte anos
Está cercada de angélicas e de moscas.
Seu rosto é inviolavelmente puro e simples.
Telefonam telefonam telefonam.

Inclino-me sem chorar sobre seu corpo.
Só agora lhe digo a palavra de ternura
Que ela nunca pode conseguir de mim,
A palavra que talvez justificasse uma vida,
A palavra que eu nunca tive a força de dizer.

Só agora sei que a amo, de um amor definitivo.
Só agora me descobri seu companheiro para sempre.
A eternidade irrompeu no tempo, violentíssima.

quarta-feira

O diagnóstico e a terapêutica

Eduardo Galeano





O amor e uma das doenças mais bravas e contagiosas. Qualquer um reconhece os doentes dessa doença. Fundas olheiras delatam que jamais dormimos, despertos noite apos noite pelos abraços, ou pela ausência de abraços, e padecemos febres devastadoras e sentimos uma irresistível necessidade de dizer estupidezes.

O amor pode ser provocado deixando cair um punhadinho de pó de me ame, como por descuido, no café ou na sopa ou na bebida. Pode ser provocado, mas não pode impedir. Não o impede nem a água benta, nem o pó de hóstia; tampouco o dente de alho, que nesse caso não serve para nada. O amor e surdo frente ao Verbo divino e ao esconjuro das bruxas. Não ha decreto de governo que possa com ele, nem poção capaz de evitá-lo, embora as vivandeiras apregoem, nos mercados, infalíveis beberagens com garantia e tudo.



 p. 91, O livro dos abraços.

...

Otto

"Esse giro
Esse amor
Essa cachaça
Esse cheiro de morte
Eu respiro forte
Eu desmaio

Eu amo demais."

Respiro

Albert Camus


Respiro a única felicidade que sou capaz - uma consciência atenciosa e cordial. Passeio o dia todo(...) cada ser que encontro, cada cheiro dessa rua, tudo é pretexto para amar sem medida. Jovens mulheres supervisionam uma colônia de férias, a trombeta do vendedor de sorvetes, as barracas de frutas, melancias vermelhas com caroços negros, uvas translúcidas e meladas - tantos apoios para quem não sabe ser só. Mas a flauta ácida e terna das cigarras, o perfume de águas e de estrelas que se encontram nas noites de setembro, os caminhos aromáticos entre as árvores de pistache e os juncos. tantos sinais de amor para quem é forçado a ser só.

Do amor

Hilda Hilst




"Antes que o mundo acabe,

deita-te e prova
Esse milagre do gosto
Que se fez na minha boca
Enquanto o mundo grita
Belicoso...
E nos cobrimos de beijos 
E de flores...
...antes que o mundo se acabe. 
Antes que acabe em nós 
Nosso desejo." 

Ciúmes

Ana Cristina Cesar



"Tenho ciúmes deste cigarro que você fuma
Tão distraidamente."

Esqueceria outros

Ana Cristina Cesar



Pelo menos três ou quatro rostos que amei
num delírio de arquivística
organizei a memória em alfabetos
como quem conta carneiros e amansa
no entanto flanco aberto não esqueço
e amo em ti os outros rostos

terça-feira

Deus

Spinoza



"Para de ficar rezando e batendo o peito! O que eu quero que faças é que saias pelo mundo e desfrutes de tua vida. Eu quero que gozes, cantes, te divirtas e que desfrutes de tudo o que Eu fiz para ti.

Para de ir a esses templos lúgubres, obscuros e frios que tu mesmo construíste e que acreditas ser a minha casa. Minha casa está nas montanhas, nos bosques, nos rios, nos lagos, nas praias. Aí é onde Eu vivo e aí expresso meu amor por ti.

Para de me culpar da tua vida miserável: Eu nunca te disse que há algo mau em ti ou que eras um pecador, ou que tua sexualidade fosse algo mau. O sexo é um presente que Eu te dei e com o qual podes expressar teu amor, teu êxtase, tua alegria. Assim, não me culpes por tudo o que te fizeram crer.

Para de ficar lendo supostas escrituras sagradas que nada têm a ver comigo. Se não podes me ler num amanhecer, numa paisagem, no olhar de teus amigos, nos olhos de teu filhinho... Não me encontrarás em nenhum livro! Confia em mim e deixa de me pedir. Tu vais me dizer como fazer meu trabalho?

Para de ter tanto medo de mim. Eu não te julgo, nem te critico, nem me irrito, nem te incomodo, nem te castigo. Eu sou puro amor.

Para de me pedir perdão. Não há nada a perdoar. Se Eu te fiz... Eu te enchi de paixões, de limitações, de prazeres, de sentimentos, de necessidades, de incoerências, de livre-arbítrio. Como posso te culpar se respondes a algo que eu pus em ti? Como posso te castigar por seres como és, se Eu sou quem te fez? Crês que eu poderia criar um lugar para queimar a todos meus filhos que não se comportem bem, pelo resto da eternidade? Que tipo de Deus pode fazer isso?

Esquece qualquer tipo de mandamento, qualquer tipo de lei; essas são artimanhas para te manipular, para te controlar, que só geram culpa em ti.

Respeita teu próximo e não faças o que não queiras para ti. A única coisa que te peço é que prestes atenção a tua vida, que teu estado de alerta seja teu guia.

Esta vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso. Esta vida é o único que há aqui e agora, e o único que precisas.

Eu te fiz absolutamente livre. Não há prêmios nem castigos. Não há pecados nem virtudes. Ninguém leva um placar. Ninguém leva um registro. Tu és absolutamente livre para fazer da tua vida um céu ou um inferno. Não te poderia dizer se há algo depois desta vida, mas posso te dar um conselho. Vive como se não o houvesse. Como se esta fosse tua única oportunidade de aproveitar, de amar, de existir. Assim, se não há nada, terás aproveitado da oportunidade que te dei. E se houver, tem certeza que Eu não vou te perguntar se foste
comportado ou não. Eu vou te perguntar se tu gostaste, se te divertiste... Do que mais gostaste? O que aprendeste?

Para de crer em mim - crer é supor, adivinhar, imaginar. Eu não quero que acredites em mim. Quero que me sintas em ti. Quero que me sintas em ti quando beijas tua amada, quando agasalhas tua filhinha, quando acaricias teu cachorro, quando tomas banho no mar.

Para de louvar-me! Que tipo de Deus ególatra tu acreditas que Eu seja? Me aborrece que me louvem. Me cansa que agradeçam. Tu te sentes grato? Demonstra-o cuidando de ti, de tua saúde, de tuas relações, do mundo. Te sentes olhado, surpreendido?... Expressa tua alegria! Esse é o jeito de me louvar.

Pára de complicar as coisas e de repetir como papagaio o que te ensinaram sobre mim. A única certeza é que tu estás aqui, que estás vivo, e que este mundo está cheio de maravilhas. Para que precisas de mais milagres? Para que tantas explicações? Não me procures fora! Não me acharás. Procura-me dentro... aí é que estou, batendo em ti."

Einstein, quando perguntado se acreditava em Deus, respondeu: “Acredito no Deus de Spinoza, que se revela por si mesmo na harmonia de tudo o que existe, e não no Deus que se interessa pela sorte e pelas ações dos homens”.

...

Bianca Alves

Toda mulher escreve nua, toda mulher sangra, todo sangue prepara, para o parto, para o rebento, para as partidas, toda mulher conhece bem de perto a morte, toda morte traí, nunca é elegante partir pra sempre, adeus é uma ausência de deus, somos americanos demais para aceitar que caminhamos sem um deus, seja lá ele quem for. 
Toda mulher morre de pé, algumas de salto, na tentativa de enganar a morte deitada.
Toda mulher simula ser o sexo frágil, sensibilidade dentro, sensibilidade fora, fortalece, vira crosta, o amor sempre foi para os fortes, chorar alto, se derramar para estranhos, foi sempre matéria de quem vive exposto, quartos escuros são para os fracos, mulher chora no ônibus, no bar, na praça, atravessando a rodoviária em meio a olhos curiosos, ela rompe a multidão e fica ainda mais linda, sua dor é acessório de luxo, mulher não ama em segredo, tudo nela fala dele(a), as novas cores, o novo corte, o espelho na bolsa, o novo jeito de tocar o chão, somos mistérios previsíveis, toda mulher está em braile(toque), é preciso adivinhação e delicadeza para uma leitura precisa, é preciso tocar pra tirar acordes claros, muito além da cama, toda mulher carrega o gozo do encontro por dias, a permanência da palavra, dos beijos, dos cheiros,demoram. 

sábado

Para: Heloísa Medeiros

De: Graciliano Ramos

Quando recebi tua carta, tremi de susto...
Minha adorada: recebi quinta-feira tua carta de 31 do mês passado. Não te respondi logo porque tencionava ir a Maceió amanhã. Infelizmente uma visita de última hora veio obrigar-me a retardar a viagem, privando-me do maior prazer que eu poderia experimentar agora. Tem mais um pouco de paciência, espera mais alguns dias.
Quando recebi tua carta, tremi de susto, pois a angústia em que vivi uma semana por não me chegarem notícias tuas era horrível e me trazia toda a sorte de pressentimentos dolorosos. Ao ler o que me disseste, porém, apareceu-me uma alegria imensa. Não calculas o bem que me fizeste. Vejo perfeitamente que não tenho razão para ser hoje mais feliz do que era ontem, sei que escreveste aquilo forçada pela insistência quase impertinente que tenho adotado para contigo. Mas como és boa! Procuras dar-me a ilusão de que me amas, e isto me enche de gratidão infinita. Não tenho agradecimentos que bastem. Evitas a palavra precisa, fazes apenas um a e uma série de pontos, mas confessas que acreditas em mim, parece que ficaste contente com a minha pobreza, explicas como podes a indecisão e a reserva que tanto me fizeram sofrer.
A prefeitura? Sim, foi ela que interrompeu a viagem que eu tinha certa para amanhã. A propósito: que história é essa de posição elevada? Enganaram-te, minha filha. Para os cargos de administração municipal escolheram a preferência os imbecis e os gatunos. Eu, que não sou gatuno, que tenho na cabeça alguns parafusos de menos, mas não sou imbecil, não dou para o ofício e qualquer dia renuncio. Por tua culpa, meu amor, toco num assunto desagradável e idiota. Isto não vale nada.
Dizes que brevemente serás a metade de minha alma. A metade? Brevemente? Não: já agora és, não a metade, mas toda. Dou-te a alma inteira, deixa-me apenas uma pequena parte para que eu possa existir por algum tempo e adorar-te.
Humilhada porque és filha dum empregado público? Quem te falou em semelhante coisa? Se fosses filha do imperador do Japão, não me quererias, é claro, nem me verias nunca; mas se teu pai fosse um assassino, não deixarias por isso de ser Heloísa: eu te amaria como te amo e me casaria contigo.
Levantas uma pequena ponta do véu que estendes sobre o que escreves: "lamentas não terem sido mais venturosos para nós" os dias que aqui passaste. Há uma reticência no fim. E lá se foram por água abaixo os nervos fortes da moça. Falas nas lutas que tiveste, nas incertezas que que te faziam avançar e recuar, nas esperanças e nas tristezas que sentias. Afinal gozavas de mim. Pouco, muito pouco, dona Lili me disse. Mas és tão boa, tens um coração tão grande, minha filha, que o pouco que me davas era demasiado para mim.
"Sonho do meu poeta"? Que é lá isso? Quando me chamaste romântico, perguntei-te por brincadeira se não ias chamar-me também poeta. Pensarás acaso que eu, quitandeiro e homem de ordem, me entregue a ocupações tão censuráveis?
Há uma pequena incoerência em tua carta. Declaras que ignoravas se o que "diziam os meus modos diziam também o meu coração", e pouco adiante afirmas que tinhas a certeza de que "eras amada". Tinha ou não tinha? Tinhas. Quando me convidaste para passar um dia em casa do vigário, não viste como fiquei? Ouvindo a tua fala e dando de cara contigo, sem esperar, fiquei tão perturbado que nem sei que tolices disse. E quando te peguei, não me lembrei de soltá-la. Creio que ainda hoje a teria segura se dona Lili, falando-me, não sugerisse a vaga idéia de que era necessário cumprimentá-la também.
Amo-te com ternura e com saudade: a indignação e o ódio desapareceram. E como poderiam existir depois da carta que me escreveu a melhor de todas as criaturas, santa bendita exilada entre as mulheres, cheia de graça, que em breve dará calor e luz à vida escura e fria que levo? Romantismo, minha querida Heloísa, romantismo, e ruim.
Perguntas-me quando vou. Oh! meu Deus! Eu queria ir amanhã, desfiz a viagem a pouco. E estou aflito. O que eu devia fazer era deixar que o diabo levasse tudo e fugir para junto de ti. E é o que farei.


Acreditar na grande sinceridade de Heloísa? Decerto. Acredito em tudo quanto quiseres.

PRELÚDIOS-INTENSOS PARA OS DESMEMORIADOS DO AMOR

Hilda Hilst


I

Toma-me. A tua boca de linho sobre a minha boca
Austera. Toma-me AGORA, ANTES
Antes que a carnadura se desfaça em sangue, antes
Da morte, amor, da minha morte, toma-me
Crava a tua mão, respira meu sopro, deglute
Em cadência minha escura agonia.

Tempo do corpo este tempo, da fome

Do de dentro. Corpo se conhecendo, lento,
Um sol de diamante alimentando o ventre,
O leite da tua carne, a minha
Fugidia.
E sobre nós este tempo futuro urdindo
Urdindo a grande teia. Sobre nós a vida
A vida se derramando. Cíclica. Escorrendo.

Te descobres vivo sob um jogo novo.

Te ordenas. E eu deliquescida: amor, amor,
Antes do muro, antes da terra, devo
Devo gritar a minha palavra, uma encantada
Ilharga
Na cálida textura de um rochedo. Devo gritar
Digo para mim mesma. Mas ao teu lado me estendo
Imensa. De púrpura. De prata. De delicadeza.

II

Tateio. A fronte. O braço. O ombro.
O fundo sortilégio da omoplata.
Matéria-menina a tua fronte e eu
Madurez, ausência nos teus claros
Guardados.

Ai, ai de mim. Enquanto caminhas

Em lúcida altivez, eu já sou o passado.
Esta fronte que é minha, prodigiosa
De núpcias e caminho
É tão diversa da tua fronte descuidada.

Tateio. E a um só tempo vivo

E vou morrendo. Entre terra e água
Meu existir anfíbio. Passeia
Sobre mim, amor, e colhe o que me resta:
Noturno girassol. Rama secreta.
(...)

sexta-feira

Bianca Alves



Sua pele estava vestida de adeus, Deus sabe o quanto eu quis ficar, a estrada também soube, num mantra silencioso pedi aos astros, aos deuses mitológicos, aos santos que desconheço, aos orixás, deuses negros, as entidades, erês, pretos velhos, moças com vestidos vermelhos, as orações da infância, recorri a tudo que eu lembrei, não queria te perder... 
Te perder é respirar diferente, sempre fundo e nunca suficiente, o ar escapa, a beleza me escapa, assim eu sufoco, me afogo, foi assim com as lágrimas, elas vieram, inicialmente comportadas,quietinhas e elegantes, depois num grito seco,agudo e quase bonito de tão triste... Só parei quando notei o tamanho da minha solidão no quarto, era madrugada, não tinha ninguém pra me abraçar, pra falar que isso logo passa, que é questão de tempo, que foi melhor pra gente, que Deus sabe das coisas, ele sabe, sabe de mim, sabe das minhas noites, noites tristes onde cato o ar que resta, acendo a luz, olho em volta e tudo me fala do logo mais, essas coisas deviam estar em pequenas e grandes caixas de papelão, eu não estou me despedindo desse quarto, da posição da estante, dos quadros, eu estou me despedindo de você.
E por mais consciente,certa da nossa escolha, eu não estou pronta... me desconheço sem os seus cachos, pintas,corujas, sem o seu colchão duro, vou parar, sinto falta do som da sua chinela pela casa, da bíblia aberta no quarto da sua mãe, do frio quando você pegava o cobertor, do calor quando você me encontrava, meu silêncio não é covardia, estou muda, faltam dois meses para o fim do ano, o ano mais feliz e triste da minha vida de agora, outros virão, outros vilões (a gente), outros vagões, outros roteiros, outros, outras, nunca mais você, nunca mais eu...

quinta-feira

Sobre o amor

Ferreira Gullar

Houve uma época em que eu pensava que as pessoas deviam ter um gatilho na garganta: quando pronunciasse — eu te amo —, mentindo, o gatilho disparava e elas explodiam. Era uma defesa intolerante contra os levianos e que refletia sem dúvida uma enorme insegurança de seu inventor. Insegurança e inexperiência. Com o passar dos anos a ideia foi abandonada, a vida revelou-me sua complexidade, suas nuanças. Aprendi que não é tão fácil dizer eu te amo sem pelo menos achar que ama e, quando a pessoa mente, a outra percebe, e se não percebe é porque não quer perceber, isto é: quer acreditar na mentira. Claro, tem gente que quer ouvir essa expressão mesmo sabendo que é mentira. O mentiroso, nesses casos, não merece punição alguma.Por aí já se vê como esse negócio de amor é complicado e de contornos imprecisos. Pode-se dizer, no entanto, que o amor é um sentimento radical — falo do amor-paixão — e é isso que aumenta a complicação. Como pode uma coisa ambígua e duvidosa ganhar a fúria das tempestades? Mas essa é a natureza do amor, comparável à do vento: fluido e arrasador. É como o vento, também às vezes doce, brando, claro, bailando alegre em torno de seu oculto núcleo de fogo.O amor é, portanto, na sua origem, liberação e aventura. Por definição, anti-burguês. O próprio da vida burguesa não é o amor, é o casamento, que é o amor institucionalizado, disciplinado, integrado na sociedade. O casamento é um contrato: duas pessoas se conhecem, se gostam, se sentem a traídas uma pela outra e decidem viver juntas. Isso poderia ser uma COisa simples, mas não é, pois há que se inserir na ordem social, definir direitos e deveres perante os homens e até perante Deus. Carimbado e abençoado, o novo casal inicia sua vida entre beijos e sorrisos. E risos e risinhos dos maledicentes. Por maior que tenha sido a paixão inicial, o impulso que os levou à pretoria ou ao altar (ou a ambos), a simples assinatura do contrato já muda tudo. Com o casamento o amor sai do marginalismo, da atmosfera romântica que o envolvia, para entrar nos trilhos da institucionalidade. Torna-se grave. Agora é construir um lar, gerar filhos, criá-los, educá-los até que, adultos, abandonem a casa para fazer sua própria vida. Ou seja: se corre tudo bem, corre tudo mal. Mas, não radicalizemos: há exceções — e dessas exceções vive a nossa irrenunciável esperança.Conheci uma mulher que costumava dizer: não há amor que resista ao tanque de lavar (ou à máquina, mesmo), ao espanador e ao bife com fritas. Ela possivelmente exagerava, mas com razão, porque tinha uns olhos ávidos e brilhantes e um coração ansioso. Ouvia o vento rumorejar nas árvores do parque, à tarde incendiando as nuvens e imaginava quanta vida, quanta aventura estaria se desenrolando naquele momento nos bares, nos cafés, nos bairros distantes. À sua volta certamente não acontecia nada: as pessoas em suas respectivas casas estavam apenas morando, sofrendo uma vida igual à sua. Essa inquietação bovariana prepara o caminho da aventura, que nem sempre acontece. Mas dificilmente deixa de acontecer. Pode não acontecer a aventura sonhada, o amor louco, o sonho que arrebata e funda o paraíso na terra. Acontece o vulgar adultério - o assim chamado -, que é quase sempre decepcionante, condenado, amargo e que se transforma numa espécie de vingança contra a mediocridade da vida. É como uma droga que se toma para curar a ansiedade e reajustar-se ao status quo. Estou curada, ela então se diz — e volta ao bife com fritas.Mas às vezes não é assim. Às vezes o sonho vem, baixa das nuvens em fogo e pousa aos teus pés um candelabro cintilante. Dura uma tarde? Uma semana? Um mês? Pode durar um ano, dois até, desde que as dificuldades sejam de proporção suficiente para manter vivo o desafio e não tão duras que acovardem os amantes. Para isso, o fundamental é saber que tudo vai acabar. O verdadeiro amor é suicida. O amor, para atingir a ignição máxima, a entrega total, deve estar condenado: a consciência da precariedade da relação possibilita mergulhar nela de corpo e alma, vivê-la enquanto morre e morrê-la enquanto vive, como numa desvairada montanha-russa, até que, de repente, acaba. E é necessário que acabe como começou, de golpe, cortado rente na carne, entre soluços, querendo e não querendo que acabe, pois o espírito humano não comporta tanta realidade, como falou um poeta maior. E enxugados os olhos, aberta a janela, lá estão as mesmas nuvens rolando lentas e sem barulho pelo céu deserto de anjos. O alívio se confunde com o vazio, e você agora prefere morrer.A barra é pesada. Quem conheceu o delírio dificilmente se habitua à antiga banalidade. Foi Gogol, no Inspetor Geral quem captou a decepção desse despertar. O falso inspetor mergulhara na fascinante impostura que lhe possibilitou uma vida de sonho: homenagens, bajulações, dinheiro e até o amor da mulher e da filha do prefeito. Eis senão quando chega o criado, trazendo-lhe o chapéu e o capote ordinário, signos da sua vida real, e lhe diz que está na hora de ir-se pois o verdadeiro inspetor está para chegar. Ele se assusta: mas então está tudo acabado? Não era verdade o sonho? E assim é: a mais delirante paixão, terminada, deixa esse sabor de impostura na boca, como se a felicidade não pudesse ser verdade. E no entanto o foi, e tanto que é impossível continuar vivendo agora, sem ela, normalmente. Ou, como diz Chico Buarque: sofrendo normalmente.Evaporado o fantasma, reaparece em sua banal realidade o guarda­-roupa, a cômoda, a camisa usada na cadeira, os chinelos. E tudo impregnado da ausência do sonho, que é agora uma agulha escondida em cada objeto, e te fere, inesperadamente, quando abres a gaveta, o livro. E te fere não porque ali esteja o sonho ainda, mas exatamente porque já não está: esteve. Sais para o trabalho, que é preciso esquecer, afundar no dia-a-dia, na rotina do dia, tolerar o passar das horas, a conversa burra, o cafezinho, as notícias do jornal. Edifícios, ruas, avenidas, lojas, cinema, aeroportos, ônibus, carrocinhas de sorvete: o mundo é um incomensurável amontoado de inutilidades. E de repente o táxi que te leva por uma rua onde a memória do sonho paira como um perfume. Que fazer? Desviar-se dessas ruas, ocultar os objetos ou, pelo contrário, expor-se a tudo, sofrer tudo de uma vez e habituar se? Mais dia menos dia toda a lembrança se apaga e te surpreendes gargalhando, a vida vibrando outra vez, nova, na garganta, sem culpa nem desculpa. E chegas a pensar: quantas manhãs como esta perdi burramente! O amor é uma doença como outra qualquer.E é verdade. Uma doença ou pelo menos uma anormalidade. Como pode acontecer que, subitamente, num mundo cheio de pessoas, alguém meta na cabeça que só existe fulano ou fulana, que é impossível viver sem essa pessoa? E reparando bem, tirando o rosto que era lindo, o corpo não era lá essas coisas... Na cama era regular, mas no papo um saco, e mentia, dizia tolices, e pensar que quase morro!...

Isso dizes agora, comendo um bife com fritas diante do espetáculo vesperal dos cúmulos e nimbos. Em paz com a vida. Ou não.

segunda-feira

Carta ao meu amor

Maitê Proença

Será que elas sabem que quando você goza é comigo que você está? Que os beijos foram pra mim e cada gota de suor? Será que sabem que nos seus silêncios é comigo que você conversa e na hora dos seus mistérios, estamos de mãos dadas lembrando do passado e sonhando pro futuro? Que sou eu a Dulcineia que te acompanha nas lutas quixotexcas contra os moinhos de vento de suas fantasias, elas sabem? E sabem que você é um caipira turrão que mente a idade e é pão duro de doer? Não bobo, isso elas não sabem porque você não entrega o ouro tão cedo, aliás, melhor contar que você não entrega nunca. E você sabe que eu nem consigo deitar com outro, porque meu corpo grita NÃO, e me chama de prostituta? Tem um buraco que fica entre os dois peitos, parece uma moleira mas chamam de plexo solar. Pois por ali me entra cada coisa. Outro dia entrou o mar inteiro, subiu até a garganta, apertou tudo, e está lá - não quer sair.


Vou te mandar um pouco. Cabe aí, ou você continua empanturrado pela terra toda que engoliu pra não morrer de fome da falta de mim? Até quando será, vida minha, que o destino espera a gente se cansar de andar em círculos? Será que ele vai ter uma paciência infinita com essa mania da gente se amar de longe? Ou um dia ele nos puxa pelas orelhas, bota os dois juntos e diz "Acabou o Tom e Jerry. Estão perdendo muito mais do que jamais vão encontrar. Um olhando pro outro, já! Viram?" E tocados pela varinha do cosmos nos saberemos que era ali que sempre quisemos estar. você fará um abrigo pro nosso amor, tô até vendo, ficou bonito, você sempre teve bom gosto.



Eu te puxo pra rede, faço um cafuné sem fim e conto estórias pra gente dormir. Ai que bom... Já pensou o cansaço que vai bater quando finalmente a gente parar com isso? Ah, você contou pr'alguma delas que pensa em mim todos os dias, e que há dias em que pensa sem parar? Perturba não é? A gente não consegue fazer as coisas, tocar o barco. Nem fingir direito que gosta de outro dá. Eu também acordo todos os dias tomada por você. E ando acordando de madrugada. Você parece que pula em cima de mim, eu dou aquele salto e pronto, é risada, conversa fiada, lágrimas, de um tudo, mas nada de dormir de novo. Você não deixa. Depois passo o dia bocejando e não tem como explicar, vou dizer o quê? Passei a noite com meu amor que não estava comigo porque... Porque? Outro dia eu acordei querendo morrer de saudade. Tinha palpitações, era grave, liguei pro médico. "Doutor, estou sofrendo de amor, não paro de chorar, meu coração vai sair pela moleira do peito, e hoje não é um bom dia pr'eu morrer. Tenho oito cenas pra gravar doutor, um artigo pra escrever, minha filha chega de viagem e eu vou buscar no aeroporto, socorro, preciso de uma pílula poderosa! Ele me conhece bem, fez a receita na hora. Vou te passar porque num momento de apuro, evita uma ida ao médico. Anota aí: Inderal para as palpitações, Buspar pra dor de amor, e Sonata pra... Puxa, como gostei desse nome, lembra mamãe tocando Chopin ao piano - tão romântico. Onde eu estava? Ah sim, Sonata pra insônia, porque desculpe mas eu tive que contar pra ele que Você não me deixa dormir. Ele falou pr'eu te mandar embora. Mas eu já fiz isso, nós sabemos quantas vezes não é? E você não vai. Quando vai, não sai de dentro de mim do mesmo jeito, entranhou, é praga da vida. Ai que praga boa... Boa nada, imagine eu, naturalista, tendo que me entupir de comprimidos, francamente! Sabe o que o Tururu pequeno falou? Minha filha te adora, sempre gostou desde neném, você sabe. Mas outro dia me vendo tão triste ela perguntou, "Mamãe porque você fica com quem te faz sofrer assim?" E eu, "Porque acho que no amor a gente tem que fazer tudo, tudo que puder pra dar certo"



Passaram-se meses.



"Você fez tudo o que podia?"
"Acho que agora sim"
"Então presta atenção, da próxima vez que ele cruzar a sua mente, você pensa, "que bom que eu me livrei desse cara!'"



Não sei onde ela arrumou essa vivência - aos doze anos puxa! Mas é que ela não agüenta me ver sofrer por tanta contradição. Podia ser simples. Romeu e Julieta andaram pras barreiras familiares, o príncipe largou seu reino pela Wally e até o João aqui da minha esquina dorme na calçada agarrado com sua Maria.



Minha filha tem razão, podia ser bem mais simples. Mas aí..., pra quem eu ia escrever esta carta?

quarta-feira

Bianca Alves


Preciso chorar por nós, tenho medo, medo desse choro entalado preso entre o peito e a garganta, ando engolindo com dificuldade, existe uma massa de tristeza que me impede o grito, sufoco, tenho refluxo, coloco a dor no lugar dela e o sono me vence, me controlo, finjo renovar os passos, mas ainda espero mudanças, mudanças sinceras, algumas te trazem pra bem perto, outras te afastam pra nunca mais, tenho evitado pensar nas coisas que amo em você, quando posso escolher penso no que nos distanciou dos nossos planos.

Lembro com pesar do seu guarda-roupas lotado e a sua dor ao abri-lo me dói, o que fazer com tanta coisa, tanta coisa guardada pra depois, me questiono, questiono nossa distância,ah, adorei aquele escorredor de macarrão, sonhei com ele. Na confusão no meio desse enredo, enrolado, a única coisa que eu sei é que continuo te amando com loucura, mas isso não é segredo, isso é sagrado. O que fizemos com a gente? desejo outros rumos, novas histórias, “mas quando penso em alguém só penso em você”, em breve estarei em outros lábios, corpos e cabelos, é assim quando a vida continua, o amor é a possibilidade que nos resta, somos experimentais, carnais, será normal novos encantos, encabulamentos, encontros, dores novas, desejo dores novas, quero tanto ir embora, mas é tão difícil me despedir de você, quero te contar tanta coisa, desempoeirar abraços, mas desconfio que os seus braços não me comportam mais, o que resta, sweet love, é refluxo, tristeza e tentativas desesperadas de  engolir esse amor, partes dele, numa antropofagia romântica. 

sábado

Sobre o Amor, etc.

(Rubem Braga)


Dizem que o mundo está cada dia menor.
É tão perto do Rio a Paris! Assim é na verdade, mas acontece que raramente vamos sequer a Niterói. E alguma coisa, talvez a idade, alonga nossas distâncias sentimentais.
Na verdade há amigos espalhados pelo mundo. Antigamente era fácil pensar que a vida era algo de muito móvel, e oferecia uma perspectiva infinita e nos sentíamos contentes achando que um belo dia estaríamos todos reunidos em volta de uma farta mesa e nos abraçaríamos e muitos se poriam a cantar e a beber e então tudo seria bom. Agora começamos a aprender o que há de irremissível nas separações. Agora sabemos que jamais voltaremos a estar juntos; pois quando estivermos juntos perceberemos que já somos outros e estamos separados pelo tempo perdido na distância. Cada um de nós terá incorporado a si mesmo o tempo da ausência. Poderemos falar, falar, para nos correspondermos por cima dessa muralha dupla; mas não estaremos juntos; seremos duas outras pessoas, talvez por este motivo, melancólicas; talvez nem isso.
Chamem de louco e tolo ao apaixonado que sente ciúmes quando ouve a sua amada dizer que na véspera de tarde o céu estava uma coisa lindíssima, com mil pequenas nuvens de leve púrpura sobre um azul de sonho. Se ela diz “nunca vi um céu tão bonito assim”, estará dando, certamente, sua impressão de momento; há centenas de céus extraordinários e esquecemos da maneira mais torpe os mais fantásticos crepúsculos que nos emocionaram. Ele porém, na véspera, estava dentro de uma sala qualquer e não viu céu nenhum. Se acaso tivesse chegado à janela e visto, agora seria feliz em saber que em outro ponto da cidade ela também vira. Mas isso não aconteceu, e ele tem ciúmes. Cita outros crepúsculos e mal esconde sua mágoa daquele. Sente que sua amada foi infiel; ela incorporou a si mesma alguma coisa nova que ele não viveu. Será um louco apenas na medida em que o amor é loucura.
Mas terá toda razão, essa feroz razão furiosamente lógica do amor. Nossa amada deve estar conosco solidária perante a nuvem. Por isso, indagamos com tão minucioso fervor sobre a semana de ausência. Sabemos que aqueles 7 dias de distância são 7 inimigos: queremos analisá-los até o fundo, para destruí-los.
Não nego razão aos que dizem que cada um deve respirar um pouco, e fazer sua pequena fuga, ainda que seja apenas ler um romance diferente ou ver um filme que o outro amado não verá. Têm razão; mas não têm paixão. São espertos porque assim procuram adaptar o amor à vida de cada um, e fazê-lo sadio, confortável e melhor, mais prazenteiro e liberal. Para resumir: querem (muito avisadamente, é certo) suprimir o amor.
Isso é bom. Também suprimimos a amizade. É horrível levar as coisas a fundo: a vida é de sua própria natureza leviana e tonta. O amigo que procura manter suas amizades distantes e manda longas cartas sentimentais tem sempre um ar de náufrago fazendo um apelo. Naufragamos a todo instante no mar bobo do tempo e do espaço, entre as ondas de coisas e sentimentos de todo dia. Sentimos perfeitamente isso quando a saudade da amada nos corrói, pois então sentimos que nosso gesto mais simples encerra uma traição. A bela criança que vemos correr ao sol não nos dar um prazer puro; a criança devia correr ao sol, mas Joana devia estar aqui para vê-la, ao nosso lado.
Bem; mais tarde contaremos a Joana que fazia sol e vimos uma criança tão engraçada e linda que corria entre os canteiros querendo pegar uma borboleta com a mão. Mas não estaremos incorporando a criança à vida de Joana; estaremos apenas lhe entregando morto o corpinho do traidor, para que Joana nos perdoe.
Assim somos na paixão do amor, absurdos e tristes. Por isso nos sentimos tão felizes e livres quando deixamos de amar. Que maravilha, que liberdade sadia em poder viver a vida por nossa conta! Só quem amou muito pode sentir essa doce felicidade gratuita que faz de cada sensação nova um prazer pessoal e virgem do qual não devemos dar contas a ninguém que more no fundo de nosso peito. Sentimo-nos fortes, sólidos e tranquilos. Até que começamos a desconfiar de que estamos sozinhos e ao abandono trancados do lado de fora da vida.
Assim o amigo que volta de longe vem rico de muita coisa e sua conversa é prodigiosa de riqueza; nós também despejamos nosso saco de emoções e novidades; mas para um sentir a mão do outro precisam se agarrar ambos a qualquer velha besteira: você se lembra daquela tarde em que tomamos cachaça num café que tinha naquela rua e estava lá uma louca que dizia, etc, etc. Então já não se trata mais de amizade, porém de necrológio.
Sentimos perfeitamente que estamos falando de dois outros sujeitos, que por sinal já faleceram – e eram nós. No amor isso é mais pungente. De onde concluireis comigo que o melhor é não amar, porém aqui, para dar fim a tanta amarga tolice, aqui e ora vos direi a frase antiga: que é melhor não viver. No que não convém pensar muito, pois a vida é curta e, enquanto pensamos, elas se vai, e finda.

Maio, 1948.

segunda-feira

Vai passar

Caio Fernando Abreu



Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.
Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.
Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.
Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.
Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:
- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ...



A personagem está sentada numa escrivaninha. A escrivaninha é muito velha, tem madeira lascada, riscada, manchada de muitas tintas. Falta a gaveta de cima. Pelo vão pode-se ver o que há no interior da segunda gaveta: uma garrafa de Pepsi-Cola vazia e um pedaço de sanduíche de queijo ou/e mortadela. Sobre o tampo, um maço de Hollywood pela metade e muito amassado, uma caixa de fósforos e um pires de cafezinho como cinzeiro. A personagem Lê um livro – de onde não consigo ler o título. A personagem usa tênis brancos (foram brancos), calças de brim azul, desbotado e sujo, um suéter amarelo de lã, esgarçado nos cotovelos. A personagem não olha em volta. Em volta, muitos moças & rapazes com pastas, falando alto (pode-se ouvir, nitidamente, a palavra “dialética”), supõe-se que sejam estudantes. Nas paredes vários cartazes. Num deles, pode-se ler claramente “Cultivar as Almas – ciclo de palestras filosóficas”. Em outro “Você na prévia”. E também: “Pela prática da Liberdade”. Por todos esse detalhes, se supõe que o cenário onde está sentada a personagem seja o diretório do centro acadêmico de alguma faculdade (mas de onde estou não consigo ver claramente). Há uma porta grande de vidro, semi aberta. Lá fora, às vezes chove, às vezes faz sol. Secas e molhadas, as pessoas que entram não param nem falam com a personagem. A personagem está vendendo alguma coisa. De onde estou não consigo ter certeza do que se trata. Mas parecem entradas, dessas para o teatro, cinema, música ou coisa assim. Ninguém pára. Todos falam entre si (pode-se ouvir, nitidamente, a expressão “contradição do sistema”), mas ninguém com a personagem. A personagem pára de ler e olha em volta para ver se está sendo observada. Lentamente. Depois introduz rápida o braço no vão da primeira gaveta (disfarçando com o livro) e, no fundo da segunda, apanha o resto do sanduíche (queijo? Mortadela?). Não vê que eu vejo. Então morde.

quinta-feira

Receita para se esquecer um grande amor


Marcelo Maroldi

Às vezes eu fecho os olhos, inspiro e procuro sentir a presença de quem já não está por perto. É um método que eu inventei tempos atrás..., e uso sempre quando o amor se transforma em saudade.
Os grandes amores existem. As grandes paixões existem. Eles existem. Eles simplesmente existem. Eu desejo que todo ser humano possa sentir o que eu um dia já senti. Somente uns poucos minutos daquele entorpecimento juvenil, daquela inundação de sentimentos que enlouquecem, daquela loucura toda que te envolve, te amedronta, aquela confusão monstruosa que vivi quando amei. E quando fui amado. Uma paixão avassaladora que me fez acreditar que eu ainda permanecia vivo. Vivo e amando. E amado. Mas, agora, eu fecho os olhos para dormir. A cama cresceu tanto de tamanho, o meu peito cada vez está menor. E muito mais vazio. Ninguém a me ninar. A minha mão não encontra a sua. Quem foi que viu a minha Dor chorando?! (Augusto dos Anjos, "Queixas Noturnas". Mas, no meu caso, diurnas também). Eu quero uma receita para se esquecer um grande amor, o senhor tem aqui para vender? O preço não me interessa, eu só quero poder seguir em frente. Nem precisa ser em frente..., basta seguir. Porque A minha vida sentou-se/ E não há quem a levante (Mário de Sá-Carneiro, "Serradura").
E o vazio logo aparece, não dá um minuto de folga (“meter a cara no trabalho” é algo que também não tem funcionado). O telefone não toca naquela hora, a minha caixa de e-mails não tem pena de mim, já não tem novidade boa a me contar. Uma sensação leve e prematura de derrota logo se apodera da gente. Depois ela cresce. Já não é mais sensação, é derrota mesmo. Eu não tenho mais para quem escrever os meus defeituosos poemas, a quem dedicar meus pensamentos, quem vai me acalmar quando a agonia aparece sem avisar? Eu me sinto tão sozinho. Por vezes eu nem me sinto. Meus olhos não vertem lágrimas, o meu coração não dispara. Será mesmo que estou vivo? Ainda nem maldisse toda a minha sina e mazela, nem afoguei minhas (agora) crônicas mágoas na cachaça libertadora, também não há outro perfume no meu corpo. Viver é amar, um dia me explicaram direitinho. Eu era inocente e acreditei. Só inocentes e tolos crédulos aprendem isso, eu tive o azar de ser um deles. Nem ouso reclamar.
Quando acordei foi em você que eu pensei. Provavelmente pensei em ti durante toda a noite também, mas dessa vez tive a sorte de não recordar. Não importa como minha vida esteja seguindo, é sempre em seu sorriso que meus pensamentos se convergem. Não há fuga nem plano B. Eu aprendi que não é te esquecendo que irei me livrar de você. Não importa quanto tempo transcorra, jamais me esquecerei daquela noite, aquela, quando estupefata você ouviu minha curtíssima e derradeira declaração de amor. Metade do tempo eu reflito sobre o que ela significou e o que ela irá se tornar em alguns parcos anos. Logo, meu coração será de outra, as suas coisas queimarei no quintal (afastando a cachorra para que não se queime) e essa frase eu voltarei a dizer. Mas não para ti, jamais para ti, nunca mais para ti... Você será apenas uma lembrança, feito tantas outras, e eu serei apenas uma lembrança para você... feito tantas outras. Já não me amas? Basta! Irei, triste, e exilado/ Do meu primeiro amor para outro amor, sozinho (Olavo Bilac, "Desterro").
Quem errou mais? Isso não importa agora, logo, posso ficar com toda culpa pelo nosso fracasso. Sempre sonhei com algo diferente, como nos contos de fadas e nos pagodes de três notas (e se me perguntam Que era mesmo que eu queria?/ ”Eu queria uma casinha/ Com varanda para o mar/ Onde brincasse a andorinha/ E onde chegasse o luar”, Vinicius de Moraes, "Sombra e Luz"). A realidade foi deveras distinta disso, só Deus é testemunha das minhas queixas. Mas, nesse momento, nada disso importa, nada do que doeu agora importa. Eu vou ficar aqui, sozinho, com minhas lembranças e nosso fracasso. Vou lembrar das partes boas, para me emocionar com a saudade. Não lembrarei de nenhuma briga, nem nada disso! Eu quero uma receita para esquecer dos momentos ruins, dos bons eu não preciso. Não preciso e não quero. Para que esquecer do que me orgulho? Do que me fez feliz? Deixa a saudade me machucar, meu anjo, uma hora ela se cansa. Eu não abro mão de recordar o quanto fomos felizes. Acabou, mas não sem muito amor. É o fim, mas não antes de muitas promessas de eterna felicidade. É isso o que vale, afinal. Eu busco isso a cada instante de minha vida.
Mas agora ele está lá e eu aqui. Ele está lá seguindo a vida dele, e eu estou aqui, seguindo a minha. Aqui eu te amo e em vão te oculta o horizonte (Neruda, "Aqui eu te amo"). Ela esta lá vivendo a vida dela como se nada tivesse acontecido. Acho, realmente não sei dizer (Teus olhos são duas silabas/ Que me custam soletrar./ Teus lábios são dous vocábulos/ Que não posso,/ Que não posso interpretar Fagundes Varela, "Canção Lógica"). Eu aqui, não triste, mas saudoso. Às vezes eu olho para os céus para descobrir se sinto algo de novo. Quem sabe um daqueles meus suspiros. Passo horas olhando as estrelas, sem entender por que elas brilham. Elas deveriam fazê-lo somente quando você fosse minha, não em qualquer situação. Mas você segue a sua vida, almoça feliz e se diverte enquanto procuro a receita para te esquecer. Sei que não irei sofrer, o que me castiga é a saudade. Não irei chorar, nem lamentar, tampouco desejar a morte. Irei apenas seguir em frente, sozinho agora, às vezes pensando: o que será que ela faz nesse momento?, agora que chove lá fora! O que será que ela faz? Será que pensa em mim? Será que sorri? Eu abro os braços para envolver a minha vida.
Lembra da música da Elis? Vou querer amar de novo e se não der eu não vou sofrer...? Preciso te dizer a verdade: se isso acontecer, eu vou sofrer sim, meu coração só existe para amar de novo, espero que você entenda. Eu sigo a minha vida por aqui, você continue a sua por aí. Se consegui a receita para se esquecer de um grande amor? Não, parece que isso não existe mesmo. A minha é seguir em frente, então, e quando não der, chorar, não há problema nenhum isso, quem aprende a amar, aprende a chorar também (Paulinho da Viola, "Amor Amor") . Eu aprendi, pratiquei contigo, jamais te esquecerei.
Cantemos a canção da vida,/ na própria luz consumida...