terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Não se mate

Carlos Drummond de Andrade Carlos, sossegue, o amor é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.
Inútil você resistir ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para as bodas que ninguém sabe quando virão,
se é que virão.
O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas, vitrolas, santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe de quê,
pra quê.
Entretanto você caminha melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro, é sempre triste,
meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.

Rabiscos de Caio

Caio Fernando Abreu Talvez um voltasse, talvez o outro fosse. Talvez um viajasse, talvez outro fugisse. Talvez trocassem cartas, telefonemas noturnos, dominicais, cristais e contas por sedex
(...) talvez ficassem curados, ao mesmo tempo ou não. Talvez algum partisse, outro ficasse. Talvez um perdesse peso, o outro ficasse cego. Talvez não se vissem nunca mais, com olhos daqui pelo menos, talvez enlouquecessem de amor e mudassem um para a cidade do outro, ou viajassem junto para Paris

(...) talvez um se matasse, o outro negativasse. Seqüestrados por um OVNI, mortos por bala perdida, quem sabe. Talvez tudo, talvez nada…

Frase

Mario Quintana

Quando duas pessoas fazem amor
Não estão apenas fazendo amor
Estão dando corda ao relógio do mundo

...

Rubem Alves , Ostra Feliz Não Faz Pérola
Amor é isto: a dialética entre a alegria do encontro e a dor da separação. E neste espaço o amor só sobrevive graças a algo que se chama fidelidade: a espera do regresso. Quem não pode suportar a dor da separação não está preparado para o amor. Porque o amor é algo que não se possui, jamais. É evento de graça. Aparece quando quer, e só nos resta ficar à espera. E, quando ele volta, a alegria volta com ele. E sentimos então que valeu a pena suportar a dor da ausência, pela alegria do reencontro.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Rabiscos de Caio

Caio Fernando Abreu
Foto do Filme: O passado, Hector Babenco

{…}então pensei
{…} numa tarde em especial, não sei quanto tempo faz, e que depois de pensar nessa tarde
{…} uma frase ficou rodando nítida e quase dura no meu pensamento.

Qualquer coisa assim: depois daquela nossa conversa


{…}, você nunca mais me procurou.”

Frase

Michel Melamed “Acreditar na incondicionalidade do amor – que um amor é incondicional -, é deciditamente precipitar o fim do amor. Porque você acredita que esse amor agüenta tudo e, assim, de um jeito ou de outro você acaba fazendo esse amor passar por tudo.”

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

...

Estou escutando Jorge Drexler, um uruguaio de voz doce e letras tristes e vorazes, algo nele parece com saudade,no momento, num suspiro ,canto em silêncio trechos da música Un pais con el nombre de un Rio, meu encontro com esse homem com poesia na voz aconteceu por meio do filme, Diário de uma motocicleta, do nosso Walter Salles. Adoro quando ele fala num só gole "como me custa querer-te" Bianca Alves Um país com o nome de um rio
URU fundo, profundo - GUA: água - I: rio. Rio de águas profundas


Vengo de un prado vacío
Venho de um pasto vazio
un país con el nombre de un río
um país com o nome de um rio
un edén olvidado
um éden esquecido
un campo al costado del mar lo
um campo perto do mar
Pocos caminos abiertos
Poucos caminhos abertos
todos los ojos en el aeropuerto
todos os olhos no aeroporto
Unos años dorados
Uns anos dourados
Un pueblo habituado a añorar
Um povo habituado a sentir saudade
Como me cuesta quererte
Como me custa querer-te
Me cuesta perderte
Me custa perder-te
Me cuesta olvidar
Me custa esquecer
El olor de la tierra mojada
O cheiro da terra molhada
La brisa del mar,
A brisa do mar,
brisa del mar, llévame hasta mi casa
brisa do mar, leva-me até minha casa
Un sueño y un pasaporte
Um sonho e um passaporte
como las aves buscamos el norte
como as aves buscam o norte
cuando el invierno se acerca y el frío comienza a apretar
quando o inverno chega e o frio começa a apertar
Y este es un invierno largo
E este é um inverno longo
van varios lustros de tragos amargos
vão varios lustros de goles amargos
y nos hicimos mayores esperando las flores
e nós nos fazemos maiores esperando as flores
del Jacaranda.
do Jacaranda.
Como me cuesta marcharme
Como me custa andar
Me cuesta quedarme
Me custa ficar
Me cuesta olvidar
Me custa esquecer
El olor de la tierra mojada
O cheiro da terra molhada
La brisa del mar
A brisa do mar
brisa del mar, llévame hasta mi casa
brisa do mar, leva-me ate minha casa
Brisa del mar
Brisa do mar

Fragmentos: Memórias de Minhas Putas Tristes

Gabriel Garcia Marquez
Tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não são os amores felizes mas os contrariados.

Pedaços

Franz Kafka"Entre muitas outras coisas, tu eras para mim uma janela através da qual podia ver as ruas. Sozinho não o podia fazer."

Mocreia

Fabrício Carpinejar

Eu descobri o que é a vulgaridade: o desinteresse.
Quem fala um palavrão apaixonado não será vulgar. Não será tosco. Acredita naquilo, colocará sua vida entre os dentes para estalar o chicote do desaforo.Quem fala um palavrão por estilo, sem necessidade, acaba se vulgarizando.Quem se oferece por excitação abarcará o peso da palavra dita, da palavra retirada, não será vulgar. Abraçará o suspense entre o pensamento e o som. O único acordo ortográfico que conheço é conciliar o que se pensa com aquilo que se deseja e conseguir ser compreendido.Quem se oferece por hábito e técnica será tão vulgar quanto a marca do biquíni acima da calça.A indiferença é vulgar. Não são vulgares a sensual abaixadinha e cada um em seu quadrado. O funk pode ser explosivo.Não são vulgares os saltos enormes, os lábios pintados de vermelho ou o laquê ou qualquer adereço escandaloso. Um travesti pode ser muito elegante.Vulgar é quem cobra por apresentação da alma durante as folgas. Não escuta os outros, não se reparte, confia que o amigo é espectador e que todos estão adorando sua companhia.Há uma diferença entre a vulgaridade e soberba. Alguns merecem a soberba. Há uma diferença entre a vulgaridade e a maldade. A maldade tem sentimento.Dei um giro noturno com minha namorada e sua amiga. Em cada bar que entrávamos, ela passava a mesma cantada ao porteiro com o interesse de arrebatar privilégios e uma mesa maior. Entoava um sopro infantil, acentuava os joelhos numa oferta despropositada. Sua voz era pedófila.Bonita, pernas trabalhadas pela dança, vestido curto, rosto carismático, mas vulgar. Não alterava nunca a velocidade dos olhos não importando a lembrança. Falava com desdém, com certeza de toga emprestada para a formatura. Não estava familiarizada com o talvez, a dúvida, a hesitação. Unicamente admitia se corresponder na quarta e quinta marchas. Não voltava atrás num assunto, não dava a mão para uma conversa, não declinava de uma opinião. Seu lema: ou me acompanhem ou deixo vocês. Ela se via como a gostosa, a poderosa, a invencível, mas vulgar, porque não conquistou em nenhum momento o direito de ser conhecida. Demonstrava um talento absurdo para grosserias. Foi com o garçom, foi com o vizinho do balcão, foi com os colegas que encontrou na rua, foi comigo.Brincava que minha namorada me chamava de gay heterossexual. Pelo excesso de cuidados e gentilezas. Ela nem me encarou. Virou os cabelos, abstraída de ternura:— Se não fosse tão feio, seria gay.Desprezou sua amizade antiga com a namorada, desprezou o que eu significava, cometeu um preconceito longe da paciência para convertê-lo em piada.Vulgar. Como animais em cativeiro. Ela não sabe, nem saberá, até para avisar de nossa morte dependemos de pele.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Rebento

Bianca Alves Cena do filme, Fale com ela, de Pedro Almodóvar, que mostra uma relação amorosa, em que o lugar do outro é dentro, o que no filme é literal, o personagem masculino entra no sexo da mulher e lá fica, se perde, demora...


Eu leio poesia como quem tem fome
Acordo de madrugada e saio procurando palavras que alimentem minha insônia
meu amor sem dúvida já dorme
rompo noites e amanhã não me recupera, sou só manhã
bocejo palavras tortas e te ligo pra saber como rompeu a noite na cama que me adotou
será que seu violão novo já falou de mim?
Adoro meu amor bobo, ele me fez mais jovem e menos sabia
já que saber não é instrumento do amor, não do meu
sigo, te sigo, sem instruções e manuais de funcionamento
gosto da forma que te amo, sem fôrmas e comparações
renasço estranhamente nas suas palavras
divago, vago e me pergunto
até onde o amor vai?
alguma hora para de crescer?
como ele se comporta num corpo tão pequeno? Sei, sou frágil pra tamanho rebento
sem resposta breve, escrevo, leio, cato frases
e o amor, esse gigante disforme e assusta-DOR
se aconchega, chega mais perto e faz morada em mim...

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Clariceando...

Clarice Lispector "a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.
Quem sou?
Bem, isso já é demais...."

domingo, 24 de janeiro de 2010

A MEUS PÉS

Fabrício Carpinejar Eu não sei por que a amo. Cada vez mais não sei. Pode ser pelo seu pescoço que se levanta para ganhar altura quando estamos abraçados. Ou será que é pela forma em que dobra as pernas no sofá? Ou quando se contorce em espiral com beijos nas costas? Eu não sei por que a amo. Será que pela sua preguiça, que se enrola em mim de manhãzinha? Ou pela sua disposição de dar a volta por cima? Eu já parei para pensar por que a amo, mas lamento, não sei. Realmente não sei. Talvez seja pelas sobrancelhas que falam antes dos olhos. Ou pelo umbigo que inicia a mão. Ou pelo copo que você balança antes de beber, para convencer a água a partir? Tantos homens têm um motivo certo para amar, definido como um emprego, e você foi escolher logo um que nada tem a dizer. Será que é pelo amor aos filhos, excessivo, que sempre me inclui? Ou pela sua vontade de fazer mercado depois do almoço para gastar menos? Será que é pelo modo como canta, o modo como dança, com os braços acenando em linhas sinuosas como fumaça de chá? Será que é pelo toque em meu joelho enquanto dirijo? Pela sua respiração suspensa na penumbra? Ou pelas nossas saídas de madrugada para encontrar sorvete em botecos? Será que me apaixonei pelo seu texto e quis ser seu personagem? Ou pela sua pressa de avisar que chegou, apertando o interfone mesmo com as chaves? Ou quando diz que está com frio no cinema? Ou quando fica muda querendo voltar ou quando fica ruidosa querendo passear? Ou quando pede que eu fique em casa mordendo o lábio de cima? Ou quando me enfrenta com raiva e me diz todas as verdades sem ao menos pedir para sentar? Ou quando sopra os machucados, de quem herdou o costume de soprar machucados mesmo quando não existem? Ou quando fica bêbada e declara que está bêbada para eu me aproveitar? Será que é pelo sua predileção em comprar presentes, sempre dando mais do que recebendo? Ou pela tapeçaria no fundo de suas bolsas, com notas, moedas, chicletes, batons e brincos avulsos? Será que a amo por que me irrita a viver mais? Será que a amo por que não me deixa a sós comigo? Eu juro que não sei por que a amo. Todo dia você se acorda querendo ouvir, eu pressinto, debruçada em meus ombros à espera do sinal, do cartão, das flores, da segunda aliança que é um par de palavras. Mas não descobri e não finjo. Entenderá que faltam motivos, só que sobram motivos. E dificulta-me pensar que se ama por motivos. Ama-se por insinuações. Será que é pelo seu medo de sangue? Pela sua infância vesga? Pelos seus joelhos esfolados nos móveis? Pela seus amores frustrados? Pela sua letra arredondada nas vogais? Pela sua insatisfação com as roupas na hora de sair? Pela ânsia em atender o telefone com a esperança de que seja eu a dizer por que a amo? Eu não sei por que a amo. Não me fale. Quem sabe deixou de amar.

Rabiscos de Caio

Caio Fernando Abreu "Quando pergunto você-compreende-tudo-isso não estou subestimando você.
Ah, deus, perdoe. Não sinto agressividade nenhuma em relação a você.
E gosto das tuas histórias.
E gosto da tua pessoa.
Dá um certo trabalho decodificar todas as emoções contraditórias,
confusas, soma-las, diminui-las e tirar essa síntese numa palavra só, esta: GOSTO."

sábado, 23 de janeiro de 2010

...

E. E. Cummings, in "livro de poemas

A função do amor é fabricar desconhecimento (o conhecido não tem desejo;mas todo o amor é desejar) embora se viva às avessas,o idêntico sufoque o uno a verdade se confunda com o acto,os peixes se gabem de pescar e os homens sejam apanhados pelos vermes(o amor pode não se importar se o tempo troteia,a luz declina,os limites vergam nem se maravilhar se um pensamento pesa como uma estrela —o medo tem morte menor;e viverá menos quando a morte acabar) que afortunados são os amantes(cujos seres se submetem ao que esteja para ser descoberto) cujo ignorante cada respirar se atreve a esconder mais do que a mais fabulosa sabedoria teme ver (que riem e choram)que sonham,criam e matam enquanto o todo se move;e cada parte permanece quieta: pode não ser sempre assim;e eu digo que se os teus lábios,que amei,tocarem os de outro,e os teus ternos fortes dedos aprisionarem o seu coração,como o meu não há muito tempo; se no rosto de outro o teu doce cabelo repousar naquele silêncio que conheço,ou naquelas grandiosas contorcidas palavras que,dizendo demasiado, permanecem desamparadamente diante do espírito ausente; se assim for,eu digo se assim for— tu do meu coração,manda-me um recado; para que possa ir até ele,e tomar as suas mãos, dizendo,Aceita toda a felicidade de mim. E então voltarei o rosto,e ouvirei um pássaro cantar terrivelmente longe nas terras perdidas. "

Quando o Meu Amor Vem Ter Comigo

E. E. Cummings
quando o meu amor vem ter comigo
é um pouco como música,
um pouco mais como uma cor curvando-se(por exemplo laranja)
contra o silêncio,ou a escuridão....
a vinda do meu amor emite um maravilhoso odor no meu pensamento,
devias ver quando a encontro como a minha menor pulsação se torna menos.
E então toda a beleza dela é um torno
cujos quietos lábios me assassinam subitamente,
mas do meu cadáver a ferramenta o sorriso dela faz algo subitamente luminoso e preciso
—e então somos Eu e Ela....
o que é isso que o realejo toca

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

SER UM SÓ

Chico César AMOR DO CORAÇÃO É A MESMA COR
O CÉU QUE O OLHO OLHA É SEMPRE ANIL
A GENTE AINDA PODE SER UM SÓ
SER UM SÓ
SER UM SÓ
MAS NÃO DÓI NO CORPO A MESMA DOR
DÓI EM UM O OUTRO NÃO SENTIR
QUE VIVER É O DOM DE NÃO SER SÓ
SOMOS A METADE DE TODOS NÓS
QUANDO A SILÊNCIO EM MINHA VOZ
NA ESCURIDÃO DE UM CANTO DE UM SER SÓ
TEM VEZ QUE O MAIS RARO É TÃO COMUM
TEM VEZ QUE HÁ BASTANTE, FALTA UM
NA VEZ QUE É PRECISO SER UM SÓ
TEM VEZ QUE É TÃO CLARO E UM NÃO VÊ
ALI À FLOR DA PELE COMO O SOL
ÀS VEZES É PRECISO SER UM SÓ

Pecado

Bianca Alves
Cometi um pecado (palavra que no hebraico significa ERRAR O ALVO)
não consegui evitar suas lágrimas, amor

sem culpa(palavra muito usada pelas religiões ocidentais)
me culpo

e torno o amor o que ele é, mortal, limitado

hoje a poesia não se fez presente

e eu te dei o meu silêncio

e as palavras, justo elas tão intimas do meu coração

tornaram-se insuficientes na minha boca

numa tentativa de calar seu choro

expulsei um “eu te amo” por não saber te consolar, amor

desliguei o telefone e o quarto se fez mudo

e suas lágrimas foram minhas

meu Deus,

percebi que o meu amor não cura outros males de sua experiência humana

sua dor hoje vai dormir sozinha, bebê

somos fragmentos, pedaços, do que o outro carrega

errei o alvo, fui egoísta, por tornar o meu amor responsável por sua alegria, tristeza

sou apenas parte

nunca serei um todo

e isso é bom

Hoje eu sei...
Fica bem...amor

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Rabiscos de Caio

Caio Fernando Abreu "Que coisas são essas que me dizes sem dizer, escondidas atrás do que realmente quer dizer? Tenho me confundido na tentativa de te decifrar, todos os dias.
Mas confuso, perdido, sozinho, minha única certeza é que de cada vez aumenta ainda mais minha necessidade de ti. Torna-se desesperada, urgente.
Eu já não sei o que faço. Não sinto nenhuma outra alegria além de ti. Como pude cair assim nesse fundo poço? Quando foi que me desequilibrei?
Não quero me afogar. Quero beber tua água.
Não te negues, minha sede é clara.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Desabafo

Fabrício Carpinejar
Levante a mão quem não quer um amor egoísta, avassalador, que ultrapasse os limites? Um amor que não peça licença, que não fale bom-dia? Um amor que esqueça o passado e dê de ombros ao que possa vir? Um amor todo tremor e insuficiência? Um amor que deixe idiota e torne o corpo inteligente? Quem não quer, hein? Um amor incondicional, absurdo e ilegível aos colegas? Um amor que não faça pensar em outra coisa além dele? Não invejo esse amor. Desconfio desse amor. Amor não é privação. Confortável amar uma mulher isolada de seu contexto. Levá-la para um lugar longe do incômodo, uma praia ou uma serra, enchê-la de mimos e palavras fortes. Sussurrar presságios e fugir com o vento. Não preciso me isolar para amar, amo para me reunir. É confortável ser amante sem a necessidade de permanecer para conversar. Sem ouvir. Sem a delicadeza da distância. Sem o respeito da saudade. Árduo e puro é ser amante dia-a-dia, no meio das tarefas e pressa do emprego, no meio das contas e do fim do mês, e encontrar um jeito de não amaldiçoar a rotina. Ser gentil apesar das expressões cortadas e do apuro. Um amante que fecha as portas dos armários e abre as portas de casa. Um amante que fica para fechar o vestido que abriu. Confortável amar sem convívio com os defeitos. Sem as circunstâncias enfraquecendo a vontade. Com o tempo livre. Com o desejo livre. Sou contra lua-de-mel. Sou favorável ao mel do pão, terno e repetitivo, que doura o miolo como um batom. Que gruda a língua no céu da boca. Os lábios abelhando asas pelo rosto. Não concordo que no amor tudo é permitido. Amor não quebra a regra, o amor cria as regras. Não concordo com o amor que joga tudo pela janela, o amor tem paciência, sobe as escadas e bate a campainha. Se não tiver ninguém, espera. O amor é simples e óbvio, que não sobra muito para contar depois dele. O amor não é para ser desmemoriado. Tem passado. Tem álbum de fotografias. Tem cartas antigas. Tem letra emendada. Tem a si mesmo. Amor nunca dirá: que os outros se danem. Ele se importa com os outros dentro de seu amor. Até com os outros que não chegaram a tempo de vê-lo amando. Vai se importar com a opinião dos pais, dos avós e, inclusive, dos mortos. Amor não demite, não despeja, não exclui. Amor é incluir a vida da mulher no amor. Seus filhos. Sua falta de filhos. Seu trabalho. Seus livros. Seus hábitos. Seus animais. Seus desaforos. Seus desafetos. Suas dificuldades de adaptação. Seus problemas. Suas reclamações. É amar o que não se amava, aprender a amar as verduras no prato.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

...

Carlos Drummond de Andrade Grafite, Os Gêmeos


Ninguém é igual a ninguém.
Todo o ser humano é um estranho ímpar.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Rabiscos de Caio

Caio Fernando Abreu


" … a cidade lá fora, com gentes falando sempre alto demais, sem parar, entrando e saindo de lugares, bebendo, comendo coisas, pagando contas, dançando alucinadas, querendo ser felizes antes da segunda-feira: URGENTE”. .

"De qualquer forma, poderia tê-lo amado muito.E amar muito, quando é permitido, deveria MODIFICAR uma vida”

MEDO DE VIVER SOZINHO

Fabrício Carpinejar Meu maior medo não é morrer sozinho, ainda que morrer sozinho, sem visitas em um hospital ou sem pássaros num asilo, é tão triste quanto uma pilha de discos de vinil para vender. Meu maior medo é viver sozinho e não me acompanhar. Meu maior medo é ter um dia de aniversário por ano para lembrar de que não nasci, de que estou "apenas olhando". Meu maior medo é perder a curiosidade da solidão. Ficar com alguém para disfarçar a espera, esquecendo do egoísmo de prender esse alguém de uma nova chance. Meu maior medo é ser reconhecido por aquilo que poderia ser. Meu maior medo é dizer sim para desistir depois, dizer não para querer depois. Meu maior medo é não ser avisado pelo medo. Meu maior medo é fingir que estou bem e me contentar em afirmar "o problema não é você, sou eu" em cada fim de relacionamento. E não acreditar nisso, seguir sendo o problema dos outros para me livrar de meu problema. Meu maior medo é viver sozinho e não ter fé para receber um mundo diferente e não ter paz para se despedir. Meu maior medo é almoçar sozinho, jantar sozinho e me esforçar em me manter ocupado para não provocar compaixão dos garçons. Meu maior medo é ajudar as pessoas porque não sei me ajudar. Meu maior medo é desperdiçar espaço em uma cama de casal, sem acordar durante a chuva mais revolta, sem adormecer diante da chuva mais branda. Meu maior medo é a necessidade de ligar a tevê enquanto tomo banho. Meu maior medo é conversar com o rádio em engarrafamento. Meu maior medo é enfrentar um final de semana sozinho depois de ouvir os programas de meus colegas de trabalho. Meu maior medo é a segunda-feira e me calar para não parecer estranho e anti-social. Meu maior medo é escavar a noite para encontrar um par e voltar mais solteiro do que antes. Meu maior medo é não conseguir acabar uma cerveja sozinho. Meu maior medo é a indecisão ao escolher um presente para mim. Meu maior medo é a expectativa de dar certo na família, que não me deixa ao menos dar errado. Meu maior medo é escutar uma música, entender a letra e faltar uma companhia para concordar comigo. Meu maior medo é que a metade do rosto que apanho com a mão seja convencida a partir com a metade do rosto que não alcanço. Meu maior medo é escrever para não pensar.

domingo, 10 de janeiro de 2010

...

Bianca Alves
Na virada do ano o amor adormeceu nos meus braços
No encaixe dos corpos, já cansados depois do amor, do amor
No silêncio do quarto
Agradeci a Deus sua existência na minha
Depois de ter você dei aDeus a dor
HOJE
Eu caço a dor de mim

sábado, 9 de janeiro de 2010

Trecho do livro: Mulheres

Eduardo Galeano

O Beijo,KLIMT, Gustav,1907


Eles são dois por engano.
A NOITE CORRIGE.

INTEGRAÇÕES

Pablo Neruda

Depois de tudo te amarei
Como se fosse sempre antes
Como se de tanto esperar
Sem que te visses nem chegasses
Estivesses eternamente
Respirando perto de mim.
Perto de mim com teus hábitos,
Teu colorido e tua guitarra
Como estão juntos os países
Nas lições escolares
E duas comarcas se confundem
E há um rio perto de um rio
e crescem juntos dois vulcões.
Perto de ti é perto de mim
E longe de tudo é tua ausência
E é cor de argila a lua
Na noite do terremoto
Quando no terror da terra
juntam-se todas as raízes
e ouve-se soar o silêncio
com a música do espanto.
O medo é também um caminho.
E entre suas pedras pavorosas
Pode marchar com quatro pés
E quatro lábios, a ternura.
Porque sem sair do presente
Que é um anel delicado
Tocamos a areia de ontem
E no mar ensina o amor
Um arrebatamento repetido

domingo, 15 de novembro de 2009

O muro

Bianca Alves

O mundo viu pela TV o momento em que o muro caiu
E acreditou numa Alemanha reunificada e num mundo melhor
Estavamos assistindo o fim das diferenças, dos eixos e dos discursos, nada de esquerda e direita e ilhas com heróis revolucionários.
A queda do muro simbolizou o fim dos blocos e dos lideres egocêntricos.

A história do homem começava a ser recontada por meio de novos valores e velhas soluções

Sim, uma nova geração nascia, crescia e se reinventava fazendo música, poesia e sexo sem culpa, surgia uma juventude sem discursos, bandeiras, sem compromisso com outro, seres estéticos, plásticos e uniformes, nossos novos herdeiros reergueram um novo muro, o muro do descompromisso, do desapego, do tô nem ai, o muro do indivíduo (aquele que não se importa com você), que faz de sua casa um presídio por medo do vizinho, do invejoso, do faminto, da polícia e do ladrão.

O muro é silencioso e alto, por ser imaginário ele engana nossas crenças e palavras como preconceito, racismo e fascismo, parecem coisas em extinção

A geração que não gera nada, que se forma(de fôrma), copiando resenhas prontas do Google, que não se importa com a história dos seus pais, que exalta meninas anoréxicas, que mata por causa de um tênis, que expulsa uma colega da universidade(Unitaliban) por causa de um vestido, me causa medo, pavor.
Como derrubar um muro que não é ideológico, religioso, político, intelectual?
Parece absurdo o que vou dizer, é....



Tenho saudades do muro de Berlim

sábado, 7 de novembro de 2009

Trechos

Rubem Alves Nietzsche dizia que quando se vai casar a única pergunta importante a se fazer é 'terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho'?

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

...

Bianca Alves Não sei se falo da planta dos seus pés ou da raiz de seus cabelos, quero saudar-te com a poesia que me resta, já que não produzo nada no amor, no momento leio jornais e publicações antigas, é fato sou egoísta quando amo, faria de tua língua e de tua letra no quadro negro minha única leitura diária, não temo a desinformação e os fatos comentados no jornal da noite, temo não saber como foi o seu dia...


O que produziu no silêncio do quarto?



Quantas vezes abriu a geladeira e viu pedaços de novelas?



Demorou um pouco mais no banho pra tirar a tinta dos dedos?



Abriu o pequeno guarda-roupa pra olhar as peças que aos poucos deixo?



Precisamos arrumar sua vitrola, ela nos liga.



Hoje é dia de cinema, gosto dos seus óculos no escuro da sala...



Que sabores inventou no almoço?



Pensou em mim?



Pensou na gente?




Ando com uma saudade boba ...



VOLTO LOGO!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Será Kafka?

O artista Flychelangelo usa moscas mortas em suas composições e reproduz imagens engraçadas e criativas do cotidiano do homem.





segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Rabiscos de Caio

Caio Fernando Abreu

"Mergulho no cheiro que não defino,
você me embala dentro dos seus braços,
você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas,
versos interrompidos, escapamentos abertos,
tilintar de telefones, máquinas de escrever,
ruídos eletrônicos, britadeiras de concreto,
e você me beija e você me aperta e você me leva pra Creta,
Mikonos, Rodes, Patmos, Delos,
e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo bem."