terça-feira

SEIS MESES

Fabrício Carpinejar Julia e José. Poderia ser Maria e Paulo. Eles se amam, mas não é suficiente. Amar não é suficiente, amar complica. Amar exige mais do que dar ou receber. Amar aumenta a fome do silêncio, o silêncio da fome. Há um tempo em que se pede tempo, em que duvidamos do que é mais autêntico, não aceitamos a vida com facilidade, que dar certo pode ser muito errado. Vi muita gente que se deprimiu de felicidade. Os dois se separaram por amor. Estranho isso. Talvez tenha sido os setenta degraus para subir a escada de residência. O momento em que contaram os degraus. Talvez seja o que nunca foi dito, porque um dos dois pensava que não era necessário. Quando se ama, a gente acredita que não é mais necessário dizer as palavras, mas é tão necessário quanto não dizê-las. Hoje, apartados, ambos se telefonam como cúmplices, pedem conselhos, conversam sobre seus filhos de uma forma que ninguém entende, exceto eles. Nem as filhas entendem o quanto de alegria significa para eles ter filhas. Pureza dos dois, que falam a mesma coisa de um jeito diferente e não se perguntam para não coincidir as respostas. Palavras cruzadas, feitas em dupla, terminam com rapidez e não tem graça. Os dois querem provar um para o outro quem é mais sensível e de tanto sensibilidade eles não se permitem sentir. A treva não é trégua, o descanso não é paz, a ave não é vidro, o vitral é tão bonito porque já nasce em pedaços. Julia, que poderia ser Maria, quando tem insônia dorme com as filhas. Dormir com as filhotas cura insônia, me diz. O abajur da respiração vai espantando o escuro do medo mais do que o medo do escuro. Julia é afeiçoada aos detalhes e se antecipa antes de sofrer mais. José, que poderia ser Paulo, sofre adiantado para não se antecipar. Ele foi criado em um universo feminino (mãe e avó), derramado entre as palavras de mulher e as mulheres de palavra. Deixa o mundo correr para depois arrumar a sala. Julia não espera o tempo de arrumar a casa, arruma a casa enquanto o mundo corre. Julia não quer esperar, José espera para querer. Eles se amam e não acreditam que nada pode separá-los, a não ser eles e seu excesso de amor. Eles se amam a ponto de desfrutarem do direito de criar distância. É estranho isso. O cansaço não usa disfarces, o ciúme não escuta desculpas, prevenir não é se defender, enlouquecer é atrasar o desencontro, regressar é não ter saído. Julia nunca será ex-mulher de José. José nunca será ex-marido de Julia. Eles não podem ser o que desconhecem, nem deixar de ser o que foram. Os dois se preservam, se protegem, como se o segredo fosse algo que esqueceram e nenhum conta que esqueceu por estar esquecido. Esquecer saliva os olhos. Não entendem o motivo da separação porque não acharam um sentido para a convivência, como se fosse preciso ter sentido. A ausência chama mais atenção. Eles se dedicaram a inventar um dialeto, mas perderam o contato com o próprio idioma para traduzi-lo. Dividiram a vida para perceber depois que a vida fica dividida. Reconstruir o que não desmoronou não adianta. Julia e José. Poderia ser Maria e Paulo. Os nomes não mudam o que foi doado. Mesmo a árvore mais desatenta cuida da estrada.

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""Erótica é a alma""

Adélia Prado